Pular para o conteúdo principal

Mestre Dila pelas palavras de quem conviveu e aprendeu com o mestre

Em conversa com Waldênio neto e atualmente gestor da Casa do Cordel Mestre Dila, trouxe um pouco mais para dividir com vocês sobre a vivência e o olhar unico que ele teve junto a esse icone da cultura pernambucana Mestre Dila.

Mestre Dila em sua oficina - Acervo da Família

                                                        Mestre Dila - Acervo da Família 

1. Waldênio, como é para você carregar a responsabilidade e o orgulho de gerenciar a Casa do Cordel e manter vivo o legado do Mestre Dila aos 89 anos?

Para mim, é uma responsabilidade muito grande, mas, acima de tudo, é uma honra. Eu sou neto de Mestre Dila e cresci dentro desse universo do cordel, da xilogravura, dos carimbos e da gráfica. Então, manter a Casa do Cordel é também manter viva uma parte da minha própria história e da história da minha família.

Meu avô dedicou a vida à arte e deixou um legado muito importante para Caruaru e para a cultura nordestina. Hoje, aos 89 anos, preservar esse legado significa fazer com que o trabalho dele continue chegando às novas gerações. A Casa do Cordel é uma maneira de fazer essa memória continuar viva, não apenas como lembrança, mas como algo que pode ser conhecido, estudado e vivenciado.


2. Quais são as memórias mais marcantes que você guarda do seu avô trabalhando no ateliê, entalhando a madeira e imprimindo as capas de cordel?

São muitas lembranças. Eu cresci vendo meu avô trabalhando. Lembro dele sentado, concentrado, entalhando a madeira com suas ferramentas, preparando as matrizes e depois fazendo a impressão.

Uma das coisas que mais me marcou foi perceber a paciência e a habilidade que ele tinha. Ele conseguia transformar uma simples madeira em uma imagem cheia de vida. Eu ficava observando e aprendendo apenas de olhar.

Também guardo muito a lembrança do cheiro da tinta, da madeira e daquele ambiente de trabalho. Hoje, quando sinto o cheiro de uma xilogravura recém-impressa, é como se uma parte daquela época voltasse. É uma lembrança muito afetiva do meu avô.

Waldênio Neto do Mestre Dila e Atual Gestor da Casa do Cordel Mestre Dila

                      Waldênio Neto do Mestre Dila e Atual Gestor da Casa do Cordel Mestre Dila


3. O evento reúne oficinas de carimbo, bordado, colagem, além de aulas de xilogravura. Como foi pensada essa integração entre as artes manuais e a tradição gráfica do Mestre Dila?

A ideia foi mostrar que o legado de Mestre Dila pode dialogar com diferentes formas de criação. Ele não trabalhava apenas com a xilogravura; a trajetória dele também passa pelos tipos gráficos, pelos carimbos, pela impressão e pelo universo do cordel.

Então, trazer o bordado, a colagem, os carimbos e a xilogravura é uma maneira de aproximar o público desse universo de uma forma prática. Queremos que as pessoas não apenas olhem para uma obra, mas tenham a oportunidade de experimentar, criar e entender um pouco do processo manual.

É também uma forma de mostrar aos jovens que essas técnicas continuam atuais e podem servir de inspiração para novas criações.

Mestre Dila em sua oficina - Acervo da Família
Mestre Dila em sua oficina - Acervo da Família

4. A exposição "Mestre Dila: entre tipos, cordéis e xilogravura" traz peças históricas para o público. O que os visitantes encontram de mais raro ou especial nesse acervo?

O mais especial é poder apresentar diferentes momentos da trajetória de Mestre Dila. Temos cordéis, xilogravuras e tipos que ajudam a contar essa história e mostram a dimensão do trabalho que ele desenvolveu ao longo da vida.

São peças que carregam não apenas valor artístico, mas também memória. Cada matriz, cada impressão e cada cordel ajuda a contar um pouco da história da gráfica, do cordel e da própria Caruaru.

Para mim, o mais importante é que o público consiga perceber que não está vendo apenas objetos antigos. Está diante de parte da história de um artista que ajudou a construir a identidade cultural da nossa cidade.


Waldênio Gestor e Neto do Mestre Dila

5. Como você enxerga o interesse das novas gerações e dos jovens estudantes que visitam o espaço do Parque 18 de Maio pela arte do cordel e da gravura?

Eu vejo esse interesse com muita esperança. Muitas vezes, quando o jovem tem a oportunidade de conhecer o processo de perto, ele se surpreende. Quando pega uma matriz, vê uma impressão sendo feita ou experimenta um carimbo, percebe que aquela tradição não está distante dele.

A Casa do Cordel também tem esse papel de aproximar. Queremos que os estudantes conheçam Mestre Dila não apenas pelo nome, mas pela história, pela técnica e pela imaginação que ele tinha.

Meu avô sempre teve uma imaginação fantástica, e isso é algo que eu gostaria que as novas gerações também percebessem: a arte popular pode ser tradicional e, ao mesmo tempo, muito criativa, inventiva e contemporânea.


6. Quais são os próximos passos e projetos para a preservação e difusão do acervo da Casa do Cordel Mestre Dila aqui em Caruaru e no Brasil?

Nosso objetivo é continuar preservando o acervo e, ao mesmo tempo, fazer com que ele circule e seja conhecido por mais pessoas. Queremos ampliar as exposições, realizar oficinas, receber estudantes, pesquisadores e artistas e criar novas possibilidades de contato com a obra de Mestre Dila.

Também queremos fortalecer a Casa do Cordel como um espaço de memória, formação e encontro com a cultura popular.

Preservar o legado do meu avô não significa deixar a obra parada. Pelo contrário: significa fazer com que ela continue sendo vista, estudada, ensinada e reinventada pelas novas gerações.

Mestre Dila em sua oficina - Acervo da Família

                                              Mestre Dila em sua oficina - Acervo da Família

Como neto, o meu maior desejo é que Mestre Dila continue sendo lembrado não apenas como meu avô, mas como o grande artista que foi e como alguém que deixou uma contribuição importante para a história do cordel e da xilogravura em Caruaru e no Brasil.


Comentários

TOP 5

Desvendando a Nova Ordem de Cristo: Mestres, Participantes e o Grão Mestre Maxuel Rodrigues de Moraes

A Nova Ordem de Cristo é uma organização que tem despertado o interesse de muitas pessoas, especialmente por sua proposta de resgatar e disseminar ensinamentos espirituais e filosóficos que buscam a evolução do ser humano e a promoção da paz. Com participantes oriundos de diversos países, essa ordem templária tem se consolidado como um espaço de reflexão, aprendizado e intercâmbio de saberes.                                                  Um dos pilares dessa ordem é o Grão Mestre Maxuel Rodrigues de Moraes, cuja liderança é marcada pela busca incessante por conhecimento e pela orientação de seus membros em seus caminhos. Maxuel tem se destacado por sua capacidade de unir pessoas de diferentes culturas e crenças, promovendo um diálogo enriquecedor que transcende fronteiras. Recentemente, realizamos uma série de entrevistas com alguns dos participantes da Nova Or...

Entre Arte e História: Uma Visita à Vila de Jenipapo - Sanharó-PE

Tive a honra de visitar a encantadora Vila de Jenipapo, acompanhando o artista plástico, produtor cultural e gestor do Museu do Homem do Campo, Maxuel Rodrigues de Moraes. Essa experiência não foi apenas uma oportunidade de explorar a rica história e cultura da região, mas também de registrar momentos significativos que nos conectam ao passado e à preservação do patrimônio histórico. A visita começou com um passeio pelo icônico casarão da vila, que, com suas características arquitetônicas originais, nos transportou para épocas passadas. O casarão é um testemunho vivo da história local, refletindo a opulência e a importância da Fazenda Jenipapo, fundada por Antônio dos Santos Coelho da Silva, um dos grandes proprietários de terras do interior de Pernambuco. Em 1808, Antônio construiu uma capela em honra a Santo Antônio, que ainda se mantém de pé, evidenciando a devoção da época e a importância da fé na vida dos habitantes locais. Durante nosso nossa visita, Maxuel que já estuda a mais t...

''Explorando a arte: visita à exposição 'Trama' por Nailde Alves''

 No último dia 6 de novembro, tive o prazer de comparecer à abertura da exposição 'Trama', da artista Nailde Alves, com curadoria de Humberto Botão. A mostra, que está em exibição na Galeria de Artes Mestre Galdino, localizada no Sesc Caruaru-PE, promete encantar os visitantes com suas obras. A atmosfera criativa e inspiradora no espaço expositivo criada pelas obras de Nailde Alves. Utilizando diversos materiais e técnicas, a artista conseguiu expressar de forma única o seu olhar sobre o cotidiano e a sociedade para formar composições únicas. Uma abordagem sensível e poética, 'Trama' convida o espectador a mergulhar nas texturas e significados por trás de cada obra, revelando um universo rico em simbolismo e emoção. É impressionante ver como Nailde conseguiu transmitir tantas sensações através de suas composições, fazendo com que cada peça conte uma história única e tocante.   Aqui estão alguns registros do evento de abertura da exposição. A exposição 'Trama' es...

Uma Jornada de Aprendizado: Pedagogia em Ação nos Caldeirões e na Biblioteca em Lajedo-PE

Nessa Quarta-Feira 25 de Setembro, alunos da Faculdade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE) em Garanhuns, Matéria de "Fundamentos e Metodologias no Ensino de Geografia 1". vivenciaram um dia especial de aprendizado prático para os alunos do curso de Pedagogia. Orientados pela professora Caline, a turma mergulhou em uma experiência única que uniu a rica história dos Caldeirões, com apresentações na Biblioteca Pública Municipal Maestro Joaquim Viana. A jornada começou com uma aula de campo nos Caldeirões, um importante sítio arqueológico localizado em Lajedo-PE. O professor e escritor Júlio César Félix, um profundo conhecedor da história local, recepcionou os alunos com entusiasmo e guiou-os por entre as rochas, compartilhando histórias e informações sobre a formação geológica e o significado cultural do local. Um Detalhe é que o Professor Júlio consegue passar de uma maneira única o seu conhecimento assim sendo de fácil absorção o conhecimento dividido e sempre que posso t...

Reflexões sobre o I Encontro Interreligioso em Lajedo-PE

Participei do I Encontro Interreligioso realizado em Lajedo-PE, uma iniciativa do Museu do Homem do Campo e do Museu Jacques Borgonha de Molay. O evento ocorreu no emblemático prédio do Rotary Clube Internacional, distrito 4500, um local que sempre me recebeu de braços abertos, tanto como convidado quanto como Produtor Cultural, Fotógrafo e Designer e dessa vez como imprensa. É sempre gratificante voltar a um espaço que tem tanta história e significado para mim. A organização, liderada por Maxuel Rodrigues de Moraes, artista plástico, pintor e produtor cultural. Maxuel, além de ser o presidente dos museus mencionados, é um agente cultural comprometido com a promoção da arte e da cultura em nossa região. Ele compartilhou um pouco sobre o projeto Excursão das Artes 2025, que promete ser um marco na promoção da diversidade cultural, com exposições de artes plásticas, rodas de leitura e palestras educativas, especialmente voltadas para as comunidades quilombolas, nações indígenas e povos d...